Por Heloísa Godoy Fagundes
Primeiras considerações...
Ao
trabalhar com jovens solistas de jazz, Miles Davis disse certa vez: “Toque o que você ouvir, não o que você
sabe”. Prática, experiência e talento puro ensinaram Davis que um show espetacular
ocorre quando as ideias entram na imaginação do músico e são desenvolvidas
através de suas próprias improvisações ao invés de ignoradas em favor de
padrões impostos.
Em
termos simples, ninguém quer pagar e ouvir um desempenho artificial. Tanto que
o fascínio que temos com a arte da criação momentânea e o valor que damos a ela
continua a florescer. Artistas contemporâneos tão variados como pianista o Keith Jarrett, o cantor Bobby McFerrin e o rapper Eminem ganham a vida improvisando e lotando
casas de shows.
Grandes improvisadores da atualidade: Chick Corea e Bob McFerrin.
O
que nos leva para as principais questões subjacentes baseadas em trabalho teórico
e empírico sobre a criatividade: O que é e como podemos realizá-la?
Conceitos de criatividade e improvisação por vezes se confundem...
Em meados de 1960, Bill Evans já sabia argumentava sobre o tema ‘‘Criatividade Musical’’.
A criatividade é a capacidade de criar coisas novas, inventar, realizar obras originais que levam a marca de seus sentimentos, pensamentos e sua personalidade. E, como uma característica proeminente da inteligência humana, a criatividade é uma atividade fundamental do processamento de informação humana. A principal diferença entre nosso cérebro e o de outros animais é a nossa capacidade de envolver-se em habilidades cognitivas como raciocínio, representação, associação, memória de trabalho e autorreflexão.
A improvisação pode ser entendida como uma fase de exploração e experimentação do músico, originando desafios que são especificidades da prática criativa. A improvisação parte da audição e estabelece um relacionamento imediato entre as imagens auditivas e os mecanismos motores da performance.
O processo de criação musical pode ser sistematizado em três etapas: improvisação (que abarcaria os processos de exploração, experimentação, seleção e ensaio); composição (que envolveria os processos de improvisação estruturada, estruturação performática e estruturação gráfica); e, por fim, a etapa de interpretação.
Encontram-se indícios de práticas criativas ligadas à improvisação em praticamente todos os períodos da história da música.
Desde as improvisações vocais medievais, passando pelo baixo contínuo barroco até as cadências clássicas e românticas, sempre houve o lado da prática musical que dava vazão à capacidade criativa dos músicos na forma da criação no ato da execução. Tais manifestações musicais instantâneas vinham sempre integradas dentro de um universo estilístico e de um conjunto de regras em constante confronto e diálogo com a liberdade e a inventividade dos músicos improvisadores. Era isso o que Miles Davis queria dizer: criação e improvisação não andam juntas com regras e padrões impostos.
Criatividade e os hemisférios cerebrais...
"Toda criação pressupõe, em sua origem, uma espécie de apetite provocado pela antevisão da descoberta. Esse gosto antecipado do ato criativo acompanha a captação intuitiva de uma entidade desconhecida já possuída, mas ainda não inteligível, uma entidade que só tomará forma definitiva pela ação de uma técnica constantemente vigilante".
– Ígor Fiódorovitch
Stravinsky (1882 - 1971) compositor,
pianista e maestro russo considerado, por muitos, um dos compositores mais importantes e influentes do século XX.
A literatura sobre criatividade e seus relacionados tópicos intuição, conhecimento especializado, resolução de problemas, realização e estudos de casos excepcionais é vasta, com perspectivas provenientes de campos tão diversos como filosofia, psicologia, ciência cognitiva, musicologia e história da arte. A neurociência da criatividade começou a abrigar interesse e pegar ritmo só muito recentemente. O mesmo aconteceu com pesquisas sobre a criatividade, do ponto de vista psicológico, sendo consideradas uma ciência jovem.
Segundo estudos, as pessoas criativas discriminam dois aspectos: um relacionado a como o problema que está sendo trabalhado é subitamente percebido sob um novo ângulo e, o outro, referente à elaboração, confirmação e comunicação da ideia original. Identificam-se, portanto, dois padrões de pensamento distintos – um deles capaz de reestruturar conceitos e, o outro, de avaliá-los. Tais pensamentos ocorrem em partes distintas do cérebro: o primeiro no hemisfério direito e, o segundo, no esquerdo.
Cada hemisfério cerebral tem sua especialidade: o hemisfério esquerdo seria mais eficiente nos processos de pensamento descrito como verbais, lógicos e analíticos, enquanto o hemisfério direito seria especializado em padrões de pensamento que enfatizam percepção, síntese e o rearranjo geral de ideias.
Para a criatividade musical e artística, o hemisfério direito seria especialmente importante, facilitando o uso de metáforas, intuição e outros processos geralmente relacionados à criação. Há que se considerar, entretanto, o papel fundamental do hemisfério esquerdo em avaliar a adequação do que foi intuído – se a ideia atende aos requisitos da situação.
Os estudos relacionados à neurociência da criatividade apontam, até agora, que não há apenas uma área ou um único processo ligado à criatividade musical. Ou seja, o que há por trás do que consideramos “inspiração” não é uma explosão de aleatoriedade e caos, mas uma série coordenada de processos cognitivos corriqueiros.
Para finalizar nosso tema tão interessante, fiquemos com dois vídeos espetaculares. O primeiro, é um documentário genial da década de 60 com o legendário pianista Bill Evans, que levantava uma enorme placa escrita “Eu já sabia!” para as informações recém-descobertas pela neurociência, já naquela época. O segundo traz, de maneira criativa, o músico Bobby McFerrin direcionando o público em uma demonstração do poder da escala pentatônica no World Science Festival (Festival Mundial da Ciência) de 2009, intitulado Notes Neurons: In Search of the Common Chorus.




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